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Galeria Melissa 10 years: O Livro

10 anos de vida

  • Galeria Melissa #01 Muti Randolph 2005

  • Flor #02 Muti Randolph 2005

  • Rock’n’Love #03 Luisa Lovefoxxx 2006

  • Trópicos de Melissa #04 Andres Sandoval 2006

  • Trópicos #05 Muti Randolph 2006

  • Create Yourself #06 Muti Randolph 2007

  • Diamante #07 Marcelo Rosembaum 2007

  • Christmas #08 Billy Castilho 2007

  • Viagens de Melissa #09 Casa Darwin 2008

  • Zaha Hadid #10 Zaha Hadid 2008

  • Campana #11 Irmãos Campana 2008

  • Star #12 Pier Paolo Balestrieri 2008

  • Afromania #13 Pier Paolo Balestrieri 2009

  • Perfume Melissa #14 Marcelo Rosembaum 2009

  • Barbie 50 years #15 Pier Paolo Balestrieri 2009

  • Street Art #16 Choque Cultural Gallery 2009

“A Galeria Melissa nasceu da nossa incansável busca pelo novo. E pela característica muito especial da Melissa de estar muito próxima de suas fãs.

Nossa idéia era de que ela precisava transcender o conceito de flagship store. Ser um espaço que pudesse unir as pessoas, sendo elas fãs ou não de Melissa, em torno dos três pilares que mais nos identificam no cenário internacional: a Moda, o Design, e a Arte.

Tudo isso ligado à característica colaborativa que está na essência da marca.

É um dos projetos que mais me enchem de orgulho. Afinal, nesses 10 anos muitas foram as experiências, parcerias, colaborações, momentos.”

Paulo Pedó Filho, CEO da Melissa

Uma loja é uma loja é uma loja: poderíamos, assim, parafreasear a máxima tautológica da poeta Gertrude Stein (que postulava que uma rosa é uma rosa é uma rosa), no exercício de nos debruçarmos sobre as dinâmicas por trás do ato de comprar.

Ora, se vamos às ruas meramente para atender a necessidades específicas de uma ou outra ocasião, uma loja, de fato, parece ser igual à outra, e ser apenas, e tão somente, uma loja, isto é, o lugar para venda de mercadorias ao público, latu sensu.

Caso é que estamos tratando aqui da Galeria Melissa, onde nada se traduz ipsis litteris, onde ao pé da letra – e ao pé de quem por lá passa – o que se compra adquire valor extra.

Nestes dez anos, foram 33 fachadas, ressaltando um aspecto essencial do projeto Galeria Melissa: o caráter mutante, mutável, mudável de sua aparência – externa e interna. Volúvel, tal qual a moda; provocadora feito a arte; com design tridimensional e orgânico como uma... Melissa.

A Galeria saiu não do papel, mas das mentes inquietas de alguns visionários da Grendene, como Paulo Pedó Filho, que conduziu o investimento de US$ 1 milhão e colocou 445 metros quadrados à disposição dos geniosos pixels do designer carioca Muti Randolph, que até então nunca havia erguido um prédio.

Sendo a Galeria Melissa menos construção e mais acontecimento, a escolha se justificou.

“Nosso sonho era trazer um conteúdo relevante para a vida de nossa consumidora, e envolvê-la em um ambiente que tivesse nossa identidade, transmitindo nossa verdade e essência”,

explica Raquel Metz Scherer, gerente de marketing da Melissa.

Se tantas gerações de mulheres no Brasil e no mundo mantêm conexão emocional com a Melissa e seu cheiro de tutti frutti, no caso da Galeria há sempre uma fachada que ficou na memória das gentes.

Nestas páginas, reunimos lembranças, histórias, detalhes, cimentando um legado sociocultural imperceptível
para muitos.

É verdade que, pela primeira vez, sob o viés da arquitetura e do urbanismo. Mas, não pela última, conduzidos pela emoção. Como a flor de Carlos Drummond de Andrade, só que bela, a Galeria Melissa “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Epicentro de otimismo, o número 827 da rua Oscar Freire é um dos endereços onde a cidade se permite sorrir.

Por Erika Palomino

Um ponto de exclamação

Na urbe mais cinza do hemisfério Sul, a Galeria Melissa São Paulo propõe um sopro de cor, forma, volumetria e vanguarda que soa como um camaleônico respiro estético na paisagem da megalópole de 20 milhões de habitantes.

Quase um ponto de exclamação numa cidade que, como nenhuma outra, traduz o caos de um desgovernado desenvolvimento.

Há 10 anos, o artista multimídia Muti Randolph foi convocado para criar esta Galeria Melissa como uma área mutante que conjuga no mesmo tempo verbal – e visual – arquitetura, artes plásticas, moda, música, design, fotografia e tecnologia em diálogo constante com o público, levando o discurso da intervenção urbana para uma escala muito mais elaborada – e tangível.

São 445 metros quadrados de área construída inspirada em formas orgânicas (as mesmas que servem de combustível para Krajcberg e que deveriam fundamentar a formação de qualquer cidade).

A partir do conceito de flexibilidade, sugerido pela matéria-prima motriz da marca, Randolph criou uma arquitetura que se adéqua às mais diversas expressões estilísticas – da casca ao conteúdo.

Na galeria-praça criada por Randolph, vale tudo: desde adesivar meio milhão de post-it coloridos na fachada até projeção holográfica, entre outras elaborações propostas por toda sorte de criadores: arquitetos, designers, artistas plásticos, divas pop.

Um exercício contínuo de questionar, pesquisar, transcender e, acima de tudo, inovar padrões e fórmulas.

Um canal de comunicação e compartilhamento de boas ideias, que funciona como ponto de cor – e de esperança – numa cidade legal, que tem tudo para dar certo, apesar dos pesares. Só não enxerga quem não quer.

Allex Colontonio é Diretor de Redação da revista “Kaza”, especializada em arquitetura, design e arte.

Construindo Emoções

Fernando Serrudo gerenciou a implantação do projeto Galeria Melissa em São Paulo, processo que depois supervisionou nas lojas de Londres e de Nova York.

Entrou na Grendene como estagiário, e atualmente responde pelo setor de Novos Negócios da Melissa. Tem muita história para contar sobre os últimos dez anos.

A Galeria Melissa foi um dos primeiros lugares em que se começou a falar sobre varejo emocional. Provocar experiências foi intencional ou se deu naturalmente?

Antes de existir a Galeria, havia as multimarcas vendendo a marca e o e-commerce pelo site. Mas em que lugar uma pessoa viveria Melissa? O conceito de Galeria Melissa surgiu daí, da ideia de viver Melissa como um todo. “Eu sinto o cheiro, eu pego e eu enxergo Melissa.” Uma experiência para ser 360°. Posso sentir a textura do produto, o brilho, o polido, o fosco... Consigo dimensionar a altura de um salto, a leveza de um chinelo, ao mesmo tempo em que olho para uma parede e vejo o rosto gigante de Karl Lagerfeld.
Assim como chego lá e me sinto extremamente pequeno, quando tenho de subir uma escada inteira, feita de Lego, que me leva para um arco-íris. O surgimento da Galeria vem para levar ao consumidor essa oportunidade.

Há, de fato, muito presente a questão da emoção, pois, mais do que o plástico, a matéria-prima da Melissa é a emoção. E a Galeria materializa isso.

O cheiro, né?! Que se sente lá da rua. Faço um exercício que é ficar parado na calçada observando a reação das pessoas, e percebo que o cheiro é o que primeiro as impacta. Depois vem algo como: “Mas não foi assim que eu vi a loja da última vez”. E o colega ao lado fala: “Não, não, é que eles estão sempre mudando”. E os próprios vizinhos perguntam o que a gente vai fazer agora, e essa espera do que está vindo é de fato muito forte. Esse é um dos maiores desafios que temos: fugir do adesivo simples na fachada o tempo inteiro, ter um objeto 3D, estar de cabeça para baixo, valorizar o aspecto sensorial. Pensar no que a gente já fez e no que de diferente pode ser feito.

Alguns “causos” engraçados...?

Um deles foi o de uma consumidora que pedia para descer do estoque todas as cores do produto porque ela queria ver somente um pé de numeração 35. E tem também o da briga de namorados, ele saindo pela porta e a guria dentro da loja, sem saber o que fazer, acabou correndo atrás dele descalça (e nunca mais voltou para buscar o próprio sapato!).

Houve também o caso de uma senhora que bateu em nossa porta depois das oito da noite querendo ver a loja, porque ela havia morado ali, aquele terreno era da casa dos pais dela. Ela queria ver o que é que tinham construído e nos disse: “Graças a Deus fizeram uma coisa bacana, não construíram nada careta!”. Esse movimento de gente é o que é mais gostoso de ver.

Muita gente famosa já passou pela Galeria. Como vocês lidam com isso?

Sempre mantivemos uma relação de não sermos tietes e de conversarmos tranquilamente, tentando levar a situação da forma mais normal possível, para não parecer que estamos bajulando. Tivemos a visita de atrizes, cantoras, modelos... Isabeli Fontana, superbacana com todo mundo; Dita Von Teese, querida e simpática. Recebemos também a Alanis Morissette, atrizes brasileiras como Patrícia Pilar, Débora Falabela...

E todo mundo ali age muito espontaneamente, né?

Sim, querem provar, falam de produto... Nota-se o quanto a Galeria virou também um ponto turístico em que as pessoas levam as outras para conhecer, como é o caso da Alice Braga, que levou a Julianne Moore – foi na época em que elas estavam filmando “Ensaio sobre a Cegueira”. Sarah Jessica Parker foi lá porque já conhecia Melissa e queria ver a loja.

Por Erika Palomino

O início de tudo

Não existem fronteiras entre arquitetura, arte e tecnologia. Ao menos para Muti Randolph e seus timespaces: um conceito de construção de ambientes cotidianos dinâmicos, que se modificam interativamente, inventado por ele.

O autor da Galeria Melissa São Paulo convida espectadores corajosos a mergulhar em um mundo de luzes e sons, onde nada é o que parece, mas toda sensação é real.

Pensando o mundo a partir de ilustrações digitais, na contramão do lugar comum, Muti projetou para o espaço da Galeria Melissa a inusitada fachada em U, “criada para enaltecer o caráter elástico do plástico, especificamente inspirado no shape de uma Melissa quando dobrada ao meio”, resume. Além, é claro, do extraordinário e expressivo recuo de 100 m2, um convite ao público para adentrar o universo de Melissa.

A vitrine? Um fino recorte de vidro, ao lado da porta de entrada, para expor Melissas como relíquias num museu histórico. E, claro, concebida para se modificar todo o tempo, uma ideia que veio do próprio designer.

“É importante destacar o caráter sustentável do projeto, que foi feito para mudar com o tempo, e por isso é todo fabricado para resistir às reformas de todos os tipos”,

explica Randolph.

Para o interior, Muti assinalou mais surpresas, que até hoje resistem à vulnerabilidade da constante avidez contemporânea por novidades: expositores e mobiliário desenhados e produzidos com curvas fluidas e orgânicas.

Para arrematar a paisagem interna, desenhou um jardim de plástico, com esculturas de plantas que usam o mesmo material e paleta de cores vivas das sandálias e sapatos fabricados pela marca, mas com os traços arredondados das figuras das pinturas modernistas da artista brasileira Tarsila do Amaral.

As primeiras fachadas usaram a experiência de Muti com a ilustração 3D. O resultado parece saltar da parede, em direção ao espectador. Era um mural de 30 metros de largura por oito de altura, feito de painéis adesivos de vinil fosco, que pareciam mesmo um emaranhado abstrato de vetores, mas que, a certa distância, da calçada da rua Oscar Freire, sugeria uma vibrante flor vermelha.

Sincronizar luz e som, com dispositivos e materiais que produzem ambientes que promovem experiências sensoriais é a sua obsessão criativa.

“Busco criar experiências imersivas e dinâmicas, nas quais as dimensões e sentidos se confundem. Arte, pesquisa e invenção devem fazer parte do nosso dia a dia, e não se restringir apenas a museus, galerias e laboratórios.”

Por Vanessa Cabral

Plastic Poetry

O ano era 2008. Para marcar o lançamento da linha Melissa Corallo, assinada por Fernando e Humberto Campana, a dupla que trouxe os olhos do mundo para o design brasileiro, foi tramada uma verdadeira operação de guerrilha, misturando ativismo e poesia.

O projeto expandiu os limites físicos da galeria Melissa e culminou com um happening no dia 8 de outubro, em torno de uma estrutura suspensa de metal cor de laranja dominando o grande átrio recuado da rua Oscar Freire.

“Foi emocionante ver a Corallo se transformar numa árvore gigante ali no meio da praça da Melissa, aquele ponto que é, para mim, um respiro na cidade”,

diz Humberto Campana.

Pairando sobre as cabeças na entrada da galeria, a Corallo transmutada em árvore seduzia e intrigava as pessoas que passavam na rua.

No dia do lançamento, filas aguardavam a abertura da galeria para pegar o fio da meada e entender toda a história. E então, foram enfileirados 150 joões-bobos cor de coral.

De noite, imagens e palavras flutuantes passeando nas fachadas de prédios em outros pontos da cidade. “Sustente-se”. Ações no Rio e em São Paulo. Atingindo a rua, interferindo na rotina urbana. Sem aviso prévio ou explicação.

Do lado de dentro, a nova coleção das sapatilhas exibida em nichos com formas orgânicas, juntamente com vídeos e fotos que contavam toda a experiência da guerrilha poética: batalhões de bonecos infláveis tomando de assalto rapidamente polos de grande circulação às 7h da matina. Tropas inertes e silenciosas surpreendendo as pessoas.

Cenas marcantes.
Perguntas e provocações.

A intervenção com os infláveis começou em São Paulo, no mês de setembro, passando por locais icônicos da cidade, como a avenida Paulista, o Vale do Anhangabaú e a Praça do Patriarca. Depois os joões-bobos foram para o Rio, e estiveram na lagoa Rodrigo de Freitas, nas orlas de Ipanema e Leblon, nos Arcos da Lapa, na Cinelândia, no Cristo Redentor e no Aterro do Flamengo.

A dupla mais famosa e subversiva do design do Brasil tem uma produção intensa e variada nas fronteiras sem fronteiras do design, da arte e do artesanato.

Apaixonados pela cultura brasileira, eles pesquisam o repertório popular de técnicas de manufatura. Ao mesmo tempo, se interessam por criar peças em série, em sintonia com a indústria, como é o caso da parceria com a Melissa.

“Tem um respeito muito bacana da parte da Melissa com relação a nós. Acho que rola um desafio mútuo de projetos e soluções. Não é uma marca prepotente, ela convida para trabalhar junto”, diz Humberto.

Por Mara Gama

Maior é Melhor

Pier Balestrieri é um motor estelar, nuclear, movido a explosões atômicas. Naturalmente, a principal fonte de inspiração para o cenógrafo é o astro-rei de nosso sistema planetário: o sol.

“Ele é o elemento cenográfico da vida. Se o cenário não tem luz, nada acontece”,

sentencia. Não é estranho, portanto, que Pier nutra um carinho especial pela Galeria Melissa, um dos endereços que, na cidade, possibilitam o contato direto do público com uma obra de arte a céu aberto.

A fachada em homenagem ao Rio de Janeiro, celebrando a coleção Verão 2016 da Melissa, batizada de Wanna Be Carioca, a mais recente criada por ele para o espaço, reproduz a grande muralha cenográfica formada pelas montanhas que abraçam a cidade, com um backlight que mimetiza um entardecer eterno.

“O sunset do Rio é uma referência que existe no imaginário de todo o mundo. Além disso, botei uma colagem no chão e um espelho no teto. Na ilustração, elementos tipicamente cariocas, como asa-deltas, banhistas, ondas, surfistas, o Pão de Açúcar... Quando a pessoa parava nesse círculo de colagens e olhava para cima, via sua imagem refletida no meio de tudo aquilo, e passava a integrar a cenografia.”

Pier causou alvoroço no endereço de luxo mais grifado do Brasil com sua fachada para a coleção Afromania (Inverno 2009), uma ode ao continente africano.

“Eu estava parado lá na frente à Galeria Melissa e, quando virei, vi um elefante branco de cinco metros de altura, em cima de uma carreta, entrando pela Oscar Freire. Parecia o desfile de uma ala de escola de samba (risos)”,

conta, ao relembrar aquele domingo de montagem, em janeiro de 2009.

O gigantismo havia se tornado, afinal, elemento recorrente e, portanto, assinatura absolutamente autoral nos trabalhos de Pier.

“A ideia dessa cenografia da Galeria Melissa veio dessa minha vontade de agigantar as coisas. Prefiro fazer coisas que tenham peso visual, impacto. Não sou muito de detalhes, de coisinhas pequenas.”

No Natal de 2008, ele criou uma estrela cadente de 4,20 m de altura, toda feita em acrílico, com 20 pontas, e que à noite era iluminada por centenas de LEDs estrategicamente espalhados pela parte interna.

Já para a fachada que celebrava os 50 anos da Barbie, foi colocada uma caixa de bonecas em escala humana, do lado esquerdo no exterior do edifício. E na abertura, em setembro de 2009, modelos de verdade vestiam looks dos estilistas Alexandre Herchcovitch, Gloria Coelho, Isabela Capeto, Dudu Bertholini e Rita Comparato, Lorenzo Merlino, Thais Gusmão e Thais Losso, que fizeram peças para a boneca.

Mais recentemente, para a fachada da coleção Star Walker, Pier trouxe de volta o mood espacial, como se um luxuoso asteroide (gigante, naturalmente), construído com faces de espelho, de efeito iluminado, tivesse caído em frente à loja. Um trabalho totalmente fora de série.

Por André Rodrigues

Psychodelic Dreams

Um dos nomes por trás do coletivo avaf (assume vivid astro focus), em parceria com o francês Christophe Hamaide-Pierson, o artista brasileiro Eli Sudbrack aciona gametas transexuais em cores saturadas e grafismos hipnotizantes para dar forma aos mundos que existem apenas no desejo.

Eli é tipo isso: um ser surrealista e andarilho, que materializa por meio de sua arte uma estética que, sob o olhar da crítica especializada, exala brasileirismos.

“Meu gosto pela cor vem certamente de minhas raízes brasileiras, mas é engraçado, porque o Christophe [Hamaide-Pierson] é francês e tem o mesmo apreço pela cor”,

divaga sobre sua produção sob o guardachuva do avaf, duo Brasil/França que pode virar coletivo conforme a vontade de seus fundadores.

Mesmo declaradamente avesso aos folclores visuais e sonoros do Carnaval tupinambá, Eli já transformou um carro alegórico de escola de samba em instalação. Já expôs desde vitrine no MoMA, em Nova York, à retrospectiva no National Museum of Art, Architecture and Design, em Oslo, na Noruega.

O Rio de Janeiro de Eli Sudbrack orbita, portanto, um planeta distante do imaginário Bossa Nova – sem barquinhos a deslizar no macio azul do mar.

“Abstração, cores, explosão”,

fala o artista sobre a fachada que ele criou para a Galeria Melissa São Paulo, inaugurada em outubro de 2011, tendo como delicioso pretexto a coleção Power of Love (Verão 2012), inspirada nos valores da geração paz & amor.

A experiência, tanto para quem passava pela rua, quanto para quem ia comprar uma sandália, ganhava contornos lisérgicos. Êxtase total. Era a fachada de número 22 na vida da Galeria Melissa.

“Nossa colaboração com a Melissa era composta de um pacote bem ambicioso: criação de uma sandália, a Melissa Lua, give-away e concepção do lounge/instalação da Melissa no São Paulo Fashion Week, em junho de 2011, seguidas pela nossa ocupação da fachada e interior da loja conceito na Oscar Freire. E, finalmente, nossa instalação com projeções de vídeo, uma escultura de néon gigante e um mural de paetês para a grande inauguração da Galeria Melissa em Nova York, em fevereiro de 2012”, resume.

“A Galeria Melissa é um exemplo único. O espaço oferece colaborações fantásticas com artistas, designers e estilistas que, com frequência, se espalham para o espaço físico da loja também. Não conheço nenhuma outra marca que faça o mesmo e com a mesma qualidade”,

finaliza o artista, que só sabe viver em mundos não- humanos, universos paralelos, regidos pela fascinação espiritual – como cantam os versos da música de Fausto Fawcett. “Mundos que só existem no desejo.”

Por André Rodrigues

This is not a shoe

A arquiteta iraquiana Zaha Hadid postou um sapato gigante na porta da Galeria Melissa. Conectada às novas tecnologias e materiais, fã de Issey Miyake e de Niemeyer, ela é uma das grandes transformadoras da paisagem contemporânea no mundo e, por isso, mal tem tempo de colocar os pés no chão.

Primeira e única mulher na história a arrebatar a condecoração máxima da arquitetura, Zaha subverteu as formas tradicionais e modernas – sejam elas retas, curvas ou oblíquas – como quem derrete um cubo de marshmallow na ponta do espeto.

Naqueles anos 2000, ela perpetuaria seu traço no tempo e no espaço como uma espécie de tatuagem no imaginário coletivo de qualquer entusiasta de arquitetura, quebrando tabus e influenciando toda uma geração de novos criadores.

Seu desenho orgânico, fluido e sensual, rabiscado à mão ou milimetricamente digitalizado no computador, subverteu os conceitos plásticos e desafiou os limites técnicos.

Hadid nasceu na Bagdá da segunda metade do século 20, num panorama bem menos explosivo do que a ideia generalizada que se costuma fazer do Oriente Médio, principalmente naqueles anos dourados.

“Tive uma infância ótima no Iraque. Várias mulheres da minha geração se tornaram arquitetas por lá, muito mais do que encontrei em qualquer outro lugar."

Atualmente seu escritório executa cerca de 100 projetos em quatro continentes. O flerte com o universo fashion é mais do que uma extensão natural da profissão: ela adora moda.

Em 2008, empolgada com uma matéria-prima pela qual se declara apaixonada, o plástico, assinou um produto para a Melissa, que estreitou mais ainda seus laços com o Brasil.

“O briefing era criar algo divertido e novo. A fluidez do design foi um casamento perfeito com a tecnologia de moldagem plástica sem costuras da Melissa”,

disse na ocasião.

A peça assimétrica, mutante, sem emendas, na qual um bloco único compõe sola, decote, talão, salto, biqueira e a cinta que sobe serpenteando a canela, como as sandálias estilo gladiador abraçavam as pernas de guerreiros e fashionistas de outras épocas.

Extremamente confortável, a peça de sopro futurista ganhou uma versão superdimensionada na Galeria Melissa, que abriu uma exposição com os trabalhos mais marcantes de Zaha Hadid. Na ocasião, uma réplica de quatro metros de altura do modelo foi estrategicamente colocada na entrada do espaço concept da marca e se transformou em ponto turístico da cidade – bem ali, na rua Oscar Freire, o eldorado mais grifado do consumo brasileiro.

Feito em resina com pintura automotiva, o par convidava os visitantes a interagir com suas formas, permitindo entrar pelas suas entranhas e interagir de dentro para fora e de fora para dentro.

Como pano de fundo, a fachada da Galeria Melissa recebia a ousadia dos traços da própria Zaha. A ilustração encapsulada no prédio brincava com os efeitos de luz, sombra e volume da bota gigante criando a “ilusão de ótica” da projeção dessas imagens. Algo difícil de esquecer.

Por Allex Colontonio

A Jungle out There

O artista plástico Kleber Matheus transformou a Galeria Melissa num pedacinho de Éden retrô- futurista, pontuado pelo efeito dos néons misturado ao contraste orgânico das plantas naturais.

São Paulo é uma megalópole recheada de ícones que vão do pop figurativo ao kitsch cool, de esquinas versadas em poesia a outras tantas renegadas ao cenário literário decadente.

Destino cravado no brutalismo de concreto traduzido por edifícios e monumentos de Oscar Niemeyer, Artacho Jurado, Victor Brecheret e Ramos de Azevedo, com muita pichação recobrindo o cinza-burocrático e o bege-chato que interligam pontes e avenidas, e alguns letreiros de néon que cintilam no frisson do colapso neurótico da urbe.

Aficionado pelos volumes dessa arquitetura com certa bossa vintage-oitentista, o artista plástico e diretor de arte Kleber Matheus foi encarregado de dar os contornos à fachada da Galeria Melissa durante o verão de 2011.

Expert em instalações que usam como principal material o elemento químico néon, Kleber viu ali a oportunidade perfeita para equilibrar o uso do gás nobre numa montagem cujo tema descortinava os confins de uma vegetação.

O tema daquela coleção era Melissa Amazonista, a primeira vez que a marca se debruçava sobre uma inspiração 100% brasileira, ainda que global.

“Imaginei criar uma floresta abstrata, impressa em adesivo sobre o muro, com pinceladas fortes que remetiam a altas árvores, cipós e o denso relevo da vegetação tropical. Adicionamos a energia e a cor das luzes de néon, com um trabalho cuidadoso do paisagista Fernando Limberger, criando uma mata lúdica e gráfica, em que os elementos plásticos e os naturais se completavam, formando uma atmosfera exuberante e cheia de vigor.”

Se na parte de fora vigorou o paisagismo vertical com um quê inspirado em Burle Marx, com jeito de superprodução, luzes abstratas e tonalidades hollywoodianas, na parte social por onde circulam os visitantes atrás de seus pares de jellys, os néons que desenharam os penachos do rabo da arara e o corpo majestoso da borboleta foram criados especialmente para a instalação, configurados sobre a imagem de um horizonte selvagem da Amazônia.

"A maioria das minhas referências vem do que me atrai visualmente, procuro sempre prestar atenção ao redor para captar alguma coisa nova, e acabo usando fragmentos de várias memórias visuais para compor meu trabalho”, explica.

É desse recorte incessante de ideias que se constitui parte do universo fantástico – e algo psicodélico – de Kleber Matheus.

A julgar pela singularidade com que o artista compõe os seus enredos, essa é uma parceria que deve acender muitos outros letreiros por aí.

Por Patrícia Favalle

Water Colors

O traço delicado da ilustradora inglesa Julie Verhoeven foi a escolha da Galeria Melissa para o verão 2013. Reconhecida por conta de seus desenhos aquarelados e de expressões enigmáticas, ela também é referência no mundo da moda. A inquietude faz parte de seu processo de criação.

“Sou fã da cultura pop, do trash, da poluição, da loucura das megalópoles... É isso que me inspira, o comportamento humano real”, diz.

Na Galeria Melissa, Julie optou por trabalhar com versões plotadas de suas mocinhas blasé. Os esboços feitos em escala foram elaborados em seu ateliê em Londres, na Inglaterra, e depois enviados para o Brasil, onde uma equipe foi encarregada de ampliá-los e, já sob a sua supervisão, aplicá- los sobre as superfícies da Galeria, tanto na fachada como na área interna.

O resultado foi uma seleção incrível de pinturas temperadas por certo atrevimento e ineditismo, uma bossa charmosa, assimétrica e elegantemente fora de compasso.

Por Patrícia Favalle

Artes de rua

A arte de rua deu novos ares ao império de concreto das grandes metrópoles e, mesmo longe de agradar a maioria, o estêncil, os stickers e os cartazes foram elevados ao status de intervenções artísticas.

Levar essa modalidade subversiva para as mecas culturais é a forma mais legítima de democratizar o seu acesso, desmistificando, assim, a marginalização que a envolve. Atentos a essa necessidade, o arquiteto Baixo Ribeiro e sua esposa, Mariana Martins, se deram conta de que a geração do filho João Pedro estava completamente órfã de ambientes artísticos contestadores.

“A Choque Cultural nasceu de uma necessidade que nós sentimos de ter um mercado de arte mais aberto.”

Com nomes do naipe de Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak, Zezão, Minhau, Chivitz e o coletivo SHN no portfólio, a Choque Cultural entrou para o seleto time que imprimiu sua marca na maior galeria a céu aberto de que se tem notícia em terras brasilis: a Galeria Melissa.

“O convite aconteceu justamente quando estávamos planejando a exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp), que seria pioneiro em receber arte urbana dentro de um recinto conservador. Naquele momento procurávamos parceiros que pudessem nos apoiar no projeto. Mais do que fazer a fachada, criamos uma ocupação feita de colagens em todo o espaço da loja, aumentando a experiência de arte imersiva e participativa.”

A ideia foi configurada para se tornar um painel gigante e transportar um pouco do caos da urbe para a aparente tranquilidade da rua onde está ancorada a Galeria.

O layout interno também ganhou uma espécie de jardim, com piso de grama sintética branca e vários quadros, pôsteres e gravuras emoldurados com tonalidades vibrantes. Já a vitrine principal recebeu modelos da Melissa pintados e iluminados de formas singulares.

A onda da contracultura é tão permissiva que sequer existe mal-estar por tracejar movimentos aparentemente antagônicos, como o protesto nascido nas periferias e a moda hype do bairro dos Jardins.

“O maior luxo que se pode esperar de uma comunidade é sua cultura. Torna-se muito relevante levar cultura de qualidade para todos aqueles que podem aproveitar. Isso não tem nada a ver com dinheiro ou exclusividade. A arte realmente tem a capacidade de atravessar fronteiras econômicas, pois atua numa frequência emocional e subjetiva.”

Alguém duvida?

Por Patrícia Favalle

Venus Palace Hotel

A cantora e multi-instrumentista Cibelle, brasileira radicada em Londres desde o início dos anos 2000, assinou a décima-nona fachada da Galeria Melissa.

Com pegada pós-tropicalista, uma instalação com néons, adesivos, lambe-lambes e muitas fotos com a imagem da cantora em diferentes versões, essa parceria marcou o lançamento de um modelo em azul Klein para a Melissa Amazonista.

Rock and Love

A terceira fachada da Galeria Melissa veio assinada pela ilustradora Luisa Hanae Matsushita, a Lovefoxxx, vocalista da banda cult Cansei de Ser Sexy.

São vários desenhos de teclados dispostos em diferentes direções, criando um grandiloquente mosaico, como se explodisse em notas musicais – dando a sensação de entrar em um piano ao caminhar pelo átrio da Galeria.

Na temporada de 2010 foi lançada a Melissa Numa, modelo de Lovefoxxx em parceria com a marca.

Irreverente, a sandália trazia dois ratinhos de plástico acoplados, em lugares diferentes em cada pé – e que são, hoje, verdadeiros itens de colecionador.

One Nation

A dupla de editores de moda Daniel Ueda e Pedro Sales une delírio, frescor e perfeccionismo para construir os figurinos multiculturais e vibrantes da coleção Melissa Nation, em uma criativa jornada.

Sendo um espaço de arte a céu aberto, faz todo o sentido que a Galeria Melissa abarque uma exposição de roupas em seu átrio.

Sendo um espaço de arte a céu aberto, faz todo o sentido que a Galeria Melissa abarque uma exposição de roupas em seu átrio.

Ainda mais quando as peças provêm do primeiro desfile da marca no mais importante evento de moda do Hemisfério Sul, o São Paulo Fashion Week.

Na temporada de Inverno 2014, o tema escolhido pela marca foi um mélange multicultural, já que Melissa está presente em toda parte do mundo, preconizando valores como o respeito a todos os povos e a valorização de suas diferenças – o nome da coleção, Nation, referia-se ao próprio universo das consumidoras da marca, constituindo-se como um reflexo dessa diversidade: uma nação, muitas raças e histórias, costuradas sob um olhar contemporâneo e vibrante.

A exposição tomou conta da Galeria Melissa em 2013. Do lado de fora da loja, três manequins; no jardim interno, outros sete looks (escolhidos dentre os 38 apresentados no São Paulo Fashion Week), enquanto telas mostravam o vídeo da histórica performance.

Vieram também as perucas, compradas em Nova York especialmente para a coleção, tingidas e cortadas pelo top beauty-artist Robert Estevão, que assinou a beleza das modelos.

E assim foi: puro pensamento de moda para mostrar uma nação sem fronteiras.

“O tema era muito rico. E fazer um trabalho com essa liberdade que tivemos é como dar doce para uma criança”,

diz Ueda. Já para Pedro, misturar países como Índia e Japão em uma mesma composição serviu como um “exercício de harmonia”.

Servindo-se de referências que vão do surrealismo a Madonna, e com a atenta observação do que acontece nas ruas, os dois foram paralelamente criando um estilo de construção de imagem que passou a ser reconhecido: Daniel Ueda com suas elaboradas sobreposições e layerings, e o rigoroso olhar, brasileiro e global tornando-se a assinatura de Pedro Sales.

Melissa, mais uma vez, aglutinou talentos.

A parceria se repetiu nos desfiles das coleções Star Walker (Inverno 2015) e Wanna Be Carioca (Verão 2016), em uma memorável apresentação no píer Mauá, no Rio de Janeiro, tendo como cenário a Baía da Guanabara.

Por Camila Yahn

Fashion Fever

É difícil percorrer os últimos 60 anos da história da moda sem esbarrar repetidas vezes no nome de Karl Lagerfeld.

Ele aparece nas biografias de Pierre Balmain e Jean Patou, dos quais foi assistente; na de Yves Saint Laurent, seu “frenemy” durante os animados anos 1960 e 1970; da maison Chloé, que ajudou a colocar entre as mais desejadas do mundo na década de 1970; da Fendi, casa italiana para a qual desenha o prêt-à-porter feminino há 50 anos; e, claro, da Chanel, marca em que ingressou em 1983, e que revolucionou por completo.

Karl é o couturier há mais tempo em atividade, ou melhor, em atividades.
Pode ser visto como verdadeira personificação do que a moda já representou, representa e, muito provavelmente, representará.

Não é complicado, então, entender por que a Melissa o escolheu como um de seus colaboradores (foram lançados cinco produtos, como a Black Tie e a Glove Love, que remetem à iconografia do designer).

A sede por novidade e inovação é qualidade em comum aos dois nomes.

O arquiteto e cenógrafo Pier Balestrieri concebeu a instalação da Galeria Melissa em homenagem a este criador alemão de Hamburgo, realizada em março de 2013.

Os contornos da emblemática cabeça-feita de Lagerfeld (com direito ao seu inconfundível penteado em rabo de cavalo) foram confeccionados em diversas camadas de néon que acendiam e apagavam sequencialmente, criando um efeito óptico de movimento.

Foi a primeira vez que a fachada foi pintada toda de preto, não por acaso a cor da moda, para receber todo este brilho. Na parte interna, um papel de parede cuja padronagem era composta de repetições das silhuetas de KL.

"Sou um oportunista da moda.”

Entre suas falas polêmicas, espécie de cortina de fumaça para se esquivar de perguntas inconvenientes ou cujas respostas são mais óbvias, esta última talvez seja a que mais se aproxima da chave de sua longevidade.

O segredo de ser essa metamorfose ambulante, capaz de se moldar não só às demandas do tempo e de mercado, como às imagens de diferentes maisons e de maneira simultânea.

Seu estilo propriamente dito é algo incógnito, muitas vezes (ou quase sempre) moldado à sua própria imagem: jeans escuro justo, camisa branca de colarinho extra alto, gravata preta, blazer ajustado, luvas com as pontas dos dedos cortadas, rabo de cavalo e os sempre presentes óculos escuros.

“A geração mais nova é menos pretensiosa; eles estão abertos, e as pessoas muito agradáveis. Ditadores de moda estão fora – e são grotescos. Agora vivemos em diálogo constante."

Na Melissa, o luxo de Lagerfeld é pop, dos pés ao coque, em plástico ou néon.

Por Luigi Torre

Beleza Rendada

Talvez o modo mais fácil de apresentar Jason Wu seja o mais óbvio. Em tempos em que não só a moda, mas a vida, resume-se a momentos salvos nas timelines de nossas memórias digitais, nesse caso, eles são dois.

O primeiro, em janeiro de 2009, quando vestiu a primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, num longo branco, para o baile inaugural da presidência de Barack Obama.

O segundo, em janeiro de 2013, quando seu marido foi empossado pela segunda vez, e ela desfilou a bordo de um longo vermelho-intenso.

Na época do primeiro vestido, então com 26 anos de idade e apenas três deles no comando de sua própria grife, Jason escolheu o branco, tom que simboliza paz, calmaria e novos tempos.

Para o segundo, já com seu negócio bem estabelecido, prêmio de melhor estilista pelo Council of Fashion Designers of America (CFDA) na mão e parcerias com marcas como Lancôme, Shiseido e Melissa no currículo (ao todo, são oito coleções assinadas a quatro mãos com a marca brasileira), o vermelho não poderia ter outro significado que não a confiança.

A preocupação de Jason Wu é com o corpo, com a mulher.

Diferente de outros “jovens designers” de sua geração, seu objetivo não é decodificar o cool. Ao se manter fiel ao que sempre acreditou, estabeleceu delicada e íntima sintonia com o que as mulheres querem ser e sentir.

Nos últimos anos, Jason Wu se tornou um dos mais proeminentes e bem-sucedidos designers da nova safra de estilistas made in USA. E assim o fez sem nunca se alinhar a uma única ou determinada tendência.

Hoje, essas mulheres são celebridades como Leighton Meester, Gretchen Mol, Diane Kruger e, principalmente, uptown girls que arrumaram espaço para suas criações em meio a coleções de Oscar de la Renta e Carolina Herrera.

No meio disso, as rendas que vestem suas mulheres viraram padrão para a vigésima primeira roupa da Galeria Melissa, que ganhou prints de rendas superdelicadas, trademark de monsieur Wu, num resultado impactante e romântico.

“Não imaginei, aos 16 anos, desenhar para bonecas, e, então, fundar minha própria etiqueta de moda.”

As experimentações que lhe renderam o título de “o Oscar de la Renta da geração digital” abrem alas para propostas autorais e menos reverenciais aos tempos que já foram.

É verdade que sua aparência engana. Com as feições orientais delicadas e máximo rigor e polidez no vestir, há mais do que os olhos podem ver aqui.

Foi a habilidade de traduzir inspirações e vontades díspares em imagens consistentes e desejáveis que saltou aos olhos de um outro gigante da moda – com sotaque alemão.

Em 2013, foi nomeado diretor artístico da Boss, linha mais sofisticada da Hugo Boss, marca mais conhecida por suas propostas simplificadas de uma roupa de trabalho de luxo do que por trajes suntuosos que vestem de primeiras-damas à estrelas de Hollywood.

Por Luigi Torre

  • Circus #17 Muti Randolph 2010

  • Amazonista #18 Kleber Matheus 2010

  • Cibelle #19 Cibelle 2010

  • Melissa Time Code #20 Casa Darwin + Coala Films 2011

  • Jason Wu #21 Jason Wu 2011

  • Avaf (Assume Vivid Astro Focus) #22 Eli Sudbrack 2011

  • Plastic Paradise #23 Estúdio Arvore 2012

  • Julie Verhoeven #24 Drawings: Julie Verhoeven 2012

  • Lego #25 Casa Darwin + Coala Films 2012

  • Karl Lagerfeld #26 Pier Paolo Balestrieri 2013

  • We Are Flowers #27 Casa Darwin 2013

  • Magnum #28 Estúdio Árvore 2013

  • Nation #29 Daniel Ueda + Pedro Sales 2013

  • Eat My Melissa #30 Casa Darwin 2014

  • Melissa One by One #31 Casa Darwin 2014

  • Star Walker #32 Pier Paolo Balestrieri 2014

Brazilian Beat

Marcelo Rosenbaum mergulhou pela primeira vez no universo da Melissa em 2005.

“Nossa longa história começou com o convite para realizarmos a exposição de lançamento do livro ‘Plastic.o.rama’, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro”,

lembra, sobre o evento que comemorava os 30 anos da marca.

O designer já interveio na Galeria em dois projetos cenográficos icônicos: Night Sky, em 2007, e 3D, em 2009, que marcou o lançamento do primeiro perfume da Melissa.

Rosenbaum é conhecido defensor da democratização do design. Ao lado da paixão pela brasilidade, é o fio que conecta suas muitas empreitadas.

Na primeira vez que atuou na Galeria Melissa, para comemorar o lançamento da parceria da marca com a designer inglesa J. Maskrey, Rosenbaum fez resplandecer a rua Oscar Freire. Revestiu os interiores da loja e sua enorme fachada com placas metálicas em formato de diamantes, criadas com o auxílio de um carnavalesco.

Um enorme lustre de diamante, pendurado no meio da praça e instalado em virtude de muito esforço, coroou o espetáculo.

Dois anos depois, o desafio era interpretar o perfume Melissa, materializando-o na fachada da Galeria. Energia, feminilidade e sensualidade são os elementos da fragrância, desenvolvida pelo perfumista Claudio de Deus para a premiada e legendária casa francesa Givaudan (criadora de hits como Angel e J’Adore, dentre outros), com coordenação da especialista brasileira Renata Aschar.

Dentro do caminho floral frutal, o perfume traz o frescor da bergamota e mescla folhas de violeta ao maracujá. Nas notas do coração da fragrância, jasmim, gardênia, muguet e ilangue-ilangue. Nas notas de fundo, o contraste com notas como o âmbar, musk e madeiras nobres como sândalo e cedro vermelho.

Assim, o designer colocou nas paredes da fachada esses ingredientes, maximizados, e desdobrados em uma estampa 3D. Um totem com óculos especiais instalados em uma peça giratória no meio do átrio central garantiam o efeito das imagens. O transeunte poderia experimentar a sensação da fachada em toda sua tridimensionalidade.

A Galeria Melissa reúne, na visão de Rosenbaum, as características de uma verdadeira praça urbana, que, desde 2005, vem reinventando por seu caminho o conceito de flagship store.

“O espaço é muito versátil e só depende do equipamento ou da ocupação proposta”, fala.

A natureza da fachada a céu aberto, em particular, atrai o designer.

“É uma experiência muito interessante, essa de democratizar o conhecimento e poder dividir o trabalho, o pensamento e a beleza com um público maior.”

A Galeria Melissa assina embaixo.

Por André Rodrigues

Verdade Tropical

As sinuosas pinceladas nas paredes da Galeria Melissa, de caráter quase naïf, carregam a força milenar das raízes tupinambás, conduzindo o arquiteto Andrés Sandoval para muito além dos caminhos que originalmente projetou para sua vida.

Quando Oscar Niemeyer (1907-2012) sentenciou que sua produção arquitetônica teria como base “a curva doce da mulher amada”, ele não estava falando por si – falava por toda uma nação que, mesmo aos trancos e barrancos, não derrapa nem nas curvas mais fechadas.

A cruzada de Niemeyer contra o funcionalismo o elevou ao topo da cadeia alimentar da desconstrução modernista na escala da arquitetura feita em terras brasilis. E, com o copo mais que cheio, esses ensinamentos acabaram transbordando de suas pranchetas, ganharam o mundo e engrossaram o coro de toda sorte de manifestação da nossa identidade nacional – seja ela qual for, seja para nós ou para inglês ver.

Essa enigmática identidade brasileira é, acima de tudo, algo muito acima da curva.

Andrés Sandoval, também arquiteto, sabe disso:

“Acho que foram as minhas pinceladas curvas, esse meu jeito de desenhar sinuoso, sempre usando minhas próprias mãos, que chamaram a atenção da Melissa”,

relembra o ilustrador sobre sua colaboração para a marca, uma série de estampas para a coleção Trópicos de Melissa.

Foi ele quem desenvolveu a quarta fachada da Galeria Melissa, aproveitando para comemorar também o primeiro aniversário da loja.

“Os grafismos indígenas e muitas das plantas que aparecem nas estampas que criei para a Melissa saíram de desenhos nativos que vi quando tive contato com a etnia Tikuna, na fronteira entre o Brasil e o Peru”,

conta resumidamente, mas a contragosto – o entrevistado em questão gosta de mergulhar a fundo em vez de boiar na superfície das questões que orbitam sua produção artística, algo que ele considera work in progress.

“Quero dar alguma contribuição ao mundo, mostrar uma forma melhor de viver e de olhar as coisas. Não que eu fique pensando nisso de antemão. Trata-se de uma construção, algo que acontece naturalmente”,

justifica. Para Andrés, uma parede vazia e esquecida pode muito bem ser a tela em branco para o começo de uma história.

“Minha proposta para a Melissa foi totalmente artesanal, manual – pinceladas, carimbos, guache. A marca, de certa forma, explora isso muito bem em seus produtos, essa questão da tecnologia contraposta à linguagem manual, o aspecto handmade. Acho que essa foi minha maior contribuição”,

fala com humildade sobre os gigantes painéis pintados à mão e que precisaram ser ampliados ainda mais em impressões feitas a partir de vários pedaços, porque nenhum maquinário gráfico disponível no Brasil em 2007 era capaz de dar conta, sozinho, do montante de trabalho.

De onde vieram tantas ideias?

“Não gosto de coisa de musa que o artista tem de vez em quando. Acho uma bobagem. Gosto de rotina, acho que é superprodutiva. A rotina não empobrece o trabalho, porque cada trabalho pede uma rotina e uma linguagem diferentes”,

conclui – sem derrapar na curva.

Por André Rodrigues

Mensagem de Amor

Uma das fachadas mais marcantes dos dez anos da Galeria Melissa foi a que ficou conhecida como “post-it”, de 2011.

Durante cinco meses, 350 mil adesivos de post-it foram colados na frente da Galeria. Os papéis eram reciclados, e a ação foi totalmente sustentável. Não à toa, se transformou em case, visto e revisto desde então em toda parte do globo.

Cinco layouts distintos traziam à memória de quem por ali passava algumas das mais emblemáticas instalações já montadas naquele espaço, como a do elefante da coleção Afromania ou a fachada inaugural da Galeria Melissa. Um verdadeiro tour de force, que imediatamente conquistou o coração dos visitantes.

A primeira fachada demandou 50 horas de trabalho ininterruptos. Pronta, as pessoas começaram a interagir, escrevendo nos pequenos papéis.

Dentre as mensagens, vários “felicidade sempre”, “a vida tem cor e nós somos aqueles que a pintamos”, “Melissa é a melhor”.

Por André Rodrigues

Over the Rainbow

A fachada da Galeria Melissa composta por pecinhas de Lego foi inaugurada em outubro de 2012, desenvolvida pela produtora Coala (de Cesar Cabral), com concepção da agência Casa Darwin.

A primeira participação de Cesar no espaço já havia sido de tirar o fôlego: foi ele e sua equipe quem deram forma física ao gigantesco par de botas imaginado pela arquiteta iraquiana Zaha Hadid que tomou conta do átrio em julho de 2008.

“Originalmente a ideia com os bloquinhos de Lego era a de fazermos tablados, mas isso acabou virando uma espécie de arco-íris, uma ponte suspensa com sua maior parte feita em Lego”, explica.

Houve muita mão de obra nos bastidores para tornar realidade essa fantasia . Os grandes blocos de Lego pesavam, cada um, cerca de meia tonelada. “Eram sete blocos ao todo”, comenta Cesar, sobre os mais de 3 mil quilos de pecinhas coloridas que tiveram de ser depois transportadas e colocadas na Galeria Melissa por meio de um guindaste.

Para Cesar, o valor cultural da Galeria Melissa não está explícito.

“A pessoa não entende que está em uma galeria, então ela se comporta de um jeito diferente do que se comportaria em um museu, por exemplo, onde ela sabe que tudo ali tem um valor. E isso é ótimo!”, resume.

Tanto que crianças e adultos foram simplesmente levados ao delírio diante da fachada construída com as pecinhas de Lego, cujo delicioso pretexto foi a comemoração do lançamento da coleção Melissa Rainbow, do Verão 2013, que tratava justamente da busca constante dos seres humanos pela tal felicidade.

Enquanto as paredes externas ganharam uma pintura de céu azul, com nuvens espalhadas, o espaço interno da loja também recebeu tratamento especial, com adesivos inspirados na textura do brinquedo. Ao final da ação, em janeiro de 2013, 95% das pedrinhas foram devolvidas para a marca, para serem reaproveitadas em outros brinquedos.

É a fórmula do sucesso de Walt Disney, reproduzida aqui comme il fault.

“Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade.”

Por André Rodrigues


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