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Por Silvia Nascimento

Quem nunca teve a sensação de sair de casa e pensar: “Como cheguei aqui?”, ou pedir aquele prato preferido no restaurante e quando se dá conta, a comida acabou, mas a impressão é de como se você não tivesse comido.

Esses são exemplos de situações em que o corpo está presente, porém a mente dispersa em preocupações ou distrações, como o smartphone. É como se vivêssemos no piloto automático passando as horas do dia semiconscientes. 
O estado de mindfulness, atenção plena, pode ser definido como uma condição mental contrária ao viver desatento.
"As principais metodologias para o desenvolvimento dessa prática são exercícios derivados de algumas ações meditativas que usam o próprio corpo (respiração e sensações corporais) como âncoras para o treinamento da atenção”, explica Malu Favarato, Mestranda em Saúde Coletiva na Unifesp, e responsável pelo Núcleo de Avaliação Clínica no Centro Mente Aberta – Mindfulness Brasil. 
A atividade chegou ao Brasil em 2015, e há várias iniciativas para levar o mindfulness para pacientes do SUS, que têm menos condições financeiras de frequentar os centros de estudos.

“No Brasil, o conceito foi trazido pelos pioneiros que estudaram fora do país. Somos nós, psicólogos, quem começamos a inserir as práticas na saúde pública brasileira”, relata Daniela Sopezki, primeira brasileira a se certificar no método da Breathworks – escola inglesa de mindfulness. Ela também é doutora em Saúde Coletiva pela Unifesp.
Mas mindfulness é para todo mundo? 
Não. Em casos muito extremos de ansiedade e depressão, o procedimento não é indicado. Malu, do centro Mente Aberta, explica: “É preciso ter ação especial no caso de pacientes com sintomas agudos e intensos, ou em condições especiais, como pessoas com esquizofrenia. Nesses casos, a indicação é pelo acompanhamento de um profissional da saúde, além de um professor de Mindfulness certificado e competente.”

De acordo com os especialistas, a vantagem de viver no presente de forma intensa é a menor irritação com os problemas que causam as típicas amolações cotidianas, como trânsito, ambiente profissional desarmônico, problemas com a família e vida acadêmica atribulada.
A sensação é de um estado de bem-estar mais sustentável, com reflexos psicológicos (mais resiliência, atitude positiva, tomadas de decisões funcionais) e corporais (menos efeitos nocivos do estresse em nossas funções vitais, como nas respostas imunológicas e inflamatórias).
Não é meditação.
As práticas de atenção plena não têm fundo religioso e nem podem ser definidas como meditação, avisa Daniela Sopeski. “Mindfulness não é meditação. Ela é um aprendizado que pode acontecer em absolutamente qualquer instante. É a consciência de estar presente no momento – mas, em qual momento? Em qualquer um! Toda hora é uma oportunidade para estar ‘mindful’”. 

O excesso do uso de tecnologia também tem causado estragos na percepção das pessoas. Na hora de dormir, durante as refeições ou dirigindo, o celular tem substituído o foco do presente real por entretimento digital, e esse é considerado até um recurso de fuga para quem tenta fugir da realidade. A tecnologia não é inimiga, o importante é saber quem controla quem. 
O mindfulness ajuda no primeiro momento para essa tomada de consciência: eu faço um uso útil e consciente da tecnologia?
"Os praticantes notam os puros automatismos, como pegar o celular sem intenção consciente, a fobia de ficar sem bateria, a inquietação de passar horas desconectado. Também passam a dialogar, a interagir nas redes e com os recursos de maneira mais otimizada, se apropriando realmente dessa ferramenta, para que ela agregue algo que verdadeiramente se está necessitando e não o que a mente, distraída e habituada, diz que precisamos”, finaliza Daniela. 

Ilustrações por Lucas Rehnman